A maioria dos deepfakes (vídeos com réplicas hiper-realistas falsificadas) gerados por inteligência artificial (IA) que se espalham pelas redes sociais mostram representantes políticos e artistas e estão frequentemente ligados a ciclos de notícias atuais. Esta é uma das conclusões de um estudo da Universidad Carlos III de Madrid (UC3M) que analisa as características formais e de conteúdo da desinformação viral na Espanha, criada com o uso de ferramentas de IA para fins ilegais. Este avanço representa um passo para a compreensão e contenção das ameaças que as fake news representam para a nossa sociedade.
No estudo, publicado recentemente na revista OberCom, a equipe de pesquisa analisou esses conteúdos falsificados com base nas verificações de organizações espanholas de checagem de fatos, como EFE Verifica, Maldita, Newtral e Verifica RTVE. "O objetivo era identificar um conjunto de padrões e características comuns desses deepfakes virais, fornecer algumas pistas para sua identificação e fazer algumas propostas de alfabetização midiática para que os cidadãos possam agir contra a desinformação", explica uma das autoras, Raquel Ruiz Incertis, pesquisadora do departamento de comunicação da UC3M, onde está cursando doutorado em comunicação europeia.
Os pesquisadores desenvolveram uma tipologia de deepfakes que facilita sua identificação e neutralização. De acordo com os resultados do estudo, alguns líderes políticos (como Trump ou Macron) foram os principais protagonistas de conteúdos relacionados ao consumo de drogas ou a atividades moralmente reprováveis. Há também uma parcela considerável de deepfakes pornográficos que violam a integridade das mulheres, expondo especialmente cantoras e atrizes famosas. Eles geralmente são compartilhados de contas não oficiais e se espalham rapidamente por meio de aplicativos de mensagens instantâneas, dizem os pesquisadores.
A disseminação de deepfakes, ou seja, o uso frequente de imagens, vídeos ou áudios manipulados com ferramentas de IA, é um tema muito atual. "Esse tipo de notícia falsa pré-fabricada é especialmente prejudicial em situações sensíveis, como em períodos pré-eleitorais ou em tempos de conflito, como os que vivenciamos atualmente na Ucrânia ou na Faixa de Gaza. É o que chamamos de 'guerras híbridas': a guerra não é travada apenas no campo físico, mas também no digital, e as inverdades são mais significativas do que nunca", afirma Ruiz Incertis.
As áreas de aplicação desta pesquisa são diversas, desde a segurança nacional até a integridade das campanhas eleitorais. Os resultados sugerem que o uso proativo de IA em plataformas de mídia social pode revolucionar a forma como preservamos a autenticidade das informações na era digital.
