Uma equipe de pesquisa da Stanford Medicine desenvolveu um sistema inovador que libera medicamentos no corpo com precisão sem precedentes, minimizando efeitos colaterais. O estudo, publicado em 18 de agosto de 2025 na Nature Nanotechnology (DOI: 10.1038/s41565-025-01990-5), descreve como nanopartículas sensíveis a ultrassom transportam medicamentos de forma direcionada para locais como regiões cerebrais ou nervos. O ingrediente chave? Açúcar comum de cozinha.
Muitos medicamentos, como psicofármacos, analgésicos ou quimioterápicos, causam efeitos colaterais porque também afetam tecidos saudáveis. Psicofármacos podem causar dissociação, analgésicos podem provocar náuseas e quimioterapias podem danificar células saudáveis. O novo sistema utiliza lipossomas – nanopartículas com uma cápsula de fosfolipídios, conhecidas das vacinas de mRNA contra a COVID-19 – para encapsular os ingredientes ativos. Um feixe de ultrassom externo libera esses ingredientes exatamente onde são necessários, com precisão de poucos milímetros.
A inovação crucial é uma solução de sacarose a 5% no núcleo aquoso dos lipossomas, que garante estabilidade no corpo e, ao mesmo tempo, reage ao ultrassom. "Uma pitada de açúcar faz a diferença", explica Raag Airan, professor assistente de radiologia e autor principal. Sem ultrassom, o medicamento permanece em grande parte encapsulado nas nanopartículas, minimizando efeitos indesejados em outras regiões do corpo.
Testes em ratos mostraram resultados impressionantes. Com a cetamina, o sistema liberou cerca de três vezes mais ingrediente ativo em uma região cerebral específica do que em outras áreas, reduzindo o comportamento ansioso ao focar no córtex pré-frontal medial. Com ropivacaína, um anestésico local, a aplicação de ultrassom no nervo ciático de uma perna produziu um entorpecimento que durou mais de uma hora, sem injeção direta no local da dor. Isso pode tornar o tratamento da dor mais confortável.
Versões anteriores do sistema eram impraticáveis: exigiam produtos químicos exóticos, fabricação complexa e armazenamento a -80 °C. Os novos lipossomas são mais estáveis, mais fáceis de fabricar e se beneficiam da infraestrutura estabelecida da produção de vacinas. O mecanismo de ultrassom, possivelmente através de poros criados nos lipossomas por vibrações, ainda não é totalmente compreendido, mas funciona de forma confiável.
O sistema tem um enorme potencial para o tratamento de depressão, dor crônica ou câncer, maximizando o efeito terapêutico e reduzindo os efeitos colaterais. A equipe de Airan planeja os primeiros estudos clínicos com cetamina para tratar especificamente aspectos emocionais da dor crônica, sujeitos à aprovação da FDA. A tecnologia pode ser aplicada a inúmeros medicamentos e mudar a medicina de forma sustentável.
