Assim como o sistema operacional de um computador pode ser reescrito após uma grande atualização, uma infecção por dengue pode “reprogramar” o sistema imunológico do corpo, deixando uma marca genética duradoura que afeta como as pessoas respondem a futuras infecções – um efeito que não ocorre com a vacinação.
Essas novas descobertas de um estudo recente fornecem informações sobre o curso da doença e a eficácia das vacinas contra a dengue, preenchendo uma lacuna importante no conhecimento para o uso seguro de vacinas, mesmo que imperfeitas. Elas também abrem caminho para o desenvolvimento futuro de vacinas contra a dengue mais seguras e eficazes. As descobertas foram publicadas por pesquisadores da Duke-NUS Medical School, em colaboração com uma equipe internacional de pesquisadores, na revista científica Cell Metabolism.
A dengue é um vírus transmitido por mosquitos que afeta milhões de pessoas anualmente em regiões tropicais e subtropicais. A doença pode variar de febre baixa com erupção cutânea a uma condição grave e fatal com hemorragias e falência de órgãos. Como existem quatro tipos diferentes do vírus da dengue, qualquer pessoa pode, teoricamente, ser infectada até quatro vezes ao longo da vida.
As vacinas atuais contra a dengue têm limitações: elas são mais eficazes na prevenção da doença em pessoas que já foram infectadas pela dengue. Nesses indivíduos, a vacina protege contra doenças causadas por todos os quatro tipos do vírus da dengue. A suposição comum é que a vacina ativa células imunes de memória formadas por uma infecção prévia pelo vírus da dengue para aumentar a proteção contra os tipos restantes do vírus da dengue. Sem tais células imunes pré-existentes, a qualidade da resposta imune à vacina é provavelmente menor.
Por essa razão, as vacinas aprovadas pela Organização Mundial da Saúde requerem mais de uma dose. Teoricamente, a primeira dose deveria gerar células imunes semelhantes às formadas após uma infecção prévia por dengue. A segunda dose da vacina, então, ativaria essas células, aumentando a proteção contra a dengue. No entanto, a resposta imune à segunda dose ainda é menor do que a observada em indivíduos com infecção prévia após apenas uma dose.
Para entender como a resposta imune a uma vacina difere daquela de uma infecção natural pelo vírus da dengue, os pesquisadores realizaram um estudo clínico com 26 voluntários nos EUA entre 2018 e 2020. Os participantes receberam duas doses de uma vacina contra a dengue [1] com 90 dias de intervalo. A equipe, então, analisou e comparou amostras de sangue de voluntários previamente infectados com dengue com as de voluntários sem histórico de infecção pelo vírus da dengue. Para garantir uma representação mais ampla, cerca de 50 voluntários de Singapura, sem histórico de infecção pelo vírus da dengue, também doaram amostras de sangue, que foram analisadas entre 2022 e 2023.
A equipe descobriu que pacientes com infecção prévia por dengue já apresentavam padrões distintos de atividade gênica antes da vacinação. Surpreendentemente, esses padrões de atividade gênica não foram encontrados nas células de memória que produzem anticorpos, mas em certos tipos de células imunes que são infectadas pelo vírus da dengue.

Créditos
Summer Zhang Duke NUS Medical School

