As autoridades francesas instruíram os hospitais do país a se prepararem para um cenário de “comprometimento militar significativo” na Europa até março de 2026. Isso é o que revela um documento interno do Ministério da Saúde francês, divulgado pelo jornal semanal Le Canard Enchaîné. O objetivo é adaptar o sistema de saúde civil para lidar com um afluxo maciço de feridos – tanto franceses quanto de outros países europeus – caso a França atue como um estado de apoio em um conflito de grande escala.
O Dr. Radu Lupescu, um anestesista francês de origem romena, condecorado pelo presidente Emmanuel Macron por seu trabalho contra a COVID-19, conversou com o jornal Adev?rul sobre os preparativos. “Este plano demonstra a maturidade de um sistema de saúde que tenta antecipar e se preparar para riscos futuros”, disse Lupescu. Ele enfatizou que a França realiza regularmente exercícios para emergências com muitas vítimas, como acidentes ou incêndios. “Se você não faz tais exercícios, é praticamente impossível se adaptar bem a um evento real.”
Lupescu apontou que os preparativos são de natureza mais organizacional, pois o número de leitos hospitalares na França tem diminuído. “Trata-se menos de nova infraestrutura e mais de desenvolver planos sobre como os hospitais civis podem ser envolvidos no caso de sobrecarga dos hospitais militares”, explicou. Os hospitais militares são raros na França. Ele suspeita que as medidas possam visar um possível envolvimento europeu na Ucrânia, como o envio de forças de paz para uma zona de demarcação após negociações. “Já no início do conflito na Ucrânia, discutiu-se se a França poderia receber feridos, o que não aconteceu até agora”, disse Lupescu.
A ministra da Saúde francesa, Catherine Vautrin, confirmou a existência do plano, mas enfatizou que se trata de uma preparação rotineira para crises, semelhante às preparações para pandemias ou outros desastres. “É totalmente normal que um país antecipe crises e suas consequências”, disse ela à BFMTV. Os preparativos incluem o estabelecimento de centros de triagem perto de portos e aeroportos, bem como o treinamento de pessoal para desafios relacionados à guerra, como escassez de recursos e tratamento de transtornos de estresse pós-traumático.
Lupescu enfatizou a importância de estoques estratégicos, que faltaram durante a pandemia de COVID, apontando para a necessidade de garantir a produção local e o armazenamento de medicamentos e equipamentos. Ele também pediu mais conscientização na Romênia sobre tais preparativos: “As pessoas devem entender a importância de estar preparadas para tais eventos – seja uma pandemia ou um acidente. Se um trem descarrilar em Bucareste, deve haver um plano: para onde os pacientes serão levados, quantos leitos e salas de cirurgia estão disponíveis, quantas unidades de sangue existem?”
Os exercícios regulares na França incluem cenários como descarrilamentos de trens ou ataques, onde estudantes de medicina atuam como feridos. “Tais exercícios são essenciais para não sermos pegos de surpresa”, disse Lupescu. “Um evento real é sempre diferente, mas sem preparação é impossível reagir de forma eficaz.”
