Em maio de 2025, na 78ª Assembleia Mundial da Saúde em Genebra, foi adotado o tratado internacional sobre pandemias da Organização Mundial da Saúde (OMS), um acordo juridicamente vinculativo destinado a fortalecer a cooperação global na prevenção, preparação e resposta a futuras pandemias. Após mais de três anos de negociações intensas entre os 194 Estados-membros, o tratado marca um momento histórico na política global de saúde. No entanto, enquanto os defensores celebram o acordo como um passo necessário para combater futuras crises de saúde, os críticos alertam para os riscos potenciais à soberania nacional, aos direitos humanos e a uma expansão excessiva das competências da OMS. Este relatório destaca o conteúdo do tratado, analisa seus pontos fortes e fracos e baseia-se em estudos revisados por pares para fornecer uma avaliação fundamentada.
Contexto e Criação do Tratado sobre Pandemias
A ideia para o tratado sobre pandemias surgiu durante a pandemia de COVID-19, que expôs sem rodeios as fraquezas na arquitetura global de saúde. Medidas nacionais inconsistentes, acesso desigual a vacinas e medicamentos, e a comunicação tardia de informações prejudicaram o combate eficaz à pandemia. Em novembro de 2020, o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, propôs um instrumento internacional para melhorar a coordenação. Um ano depois, em dezembro de 2021, os Estados-membros da OMS decidiram estabelecer um órgão de negociação intergovernamental (Intergovernmental Negotiating Body, INB) para elaborar o tratado. As negociações foram complexas, marcadas por conflitos de interesse entre países ricos e mais pobres, especialmente em questões de justiça distributiva e direitos de patente. Após várias rodadas de negociação, que se estenderam até abril de 2025, os países chegaram a um texto final que agora precisa ser ratificado por pelo menos 60 países para entrar em vigor.
Conteúdo do Tratado sobre Pandemias
O contrato visa três objetivos principais: a prevenção de pandemias, uma melhor preparação para crises de saúde e uma resposta coordenada em caso de pandemia. Os pontos centrais incluem a melhoria dos sistemas de alerta precoce, o fortalecimento dos sistemas nacionais de saúde e um acesso mais equitativo a contramedidas médicas, como vacinas e diagnósticos. Um elemento central é o chamado Sistema de Acesso e Compartilhamento de Benefícios de Patógenos (PABS), que visa promover o intercâmbio de amostras de patógenos e dados genéticos. Países que fornecem esses dados receberão em troca acesso a vacinas ou medicamentos desenvolvidos a partir deles. Além disso, o contrato enfatiza a abordagem "One Health", que foca na interconexão da saúde humana, animal e ambiental para detectar precocemente doenças zoonóticas. O contrato também prevê o envolvimento de atores não estatais, como institutos de pesquisa e ONGs, para melhorar a vigilância global dos riscos à saúde.
Outro foco está no financiamento. O contrato exige maiores investimentos em sistemas de saúde, especialmente no sul global, bem como a transferência de tecnologia e conhecimento para criar capacidades locais de produção de vacinas. A questão dos direitos de patente foi controversa por muito tempo: enquanto os países em desenvolvimento pediam um relaxamento das patentes para tornar os medicamentos mais acessíveis, as nações industrializadas insistiam na proteção da propriedade intelectual. O compromisso prevê que as questões de direitos de patente continuarão a ser negociadas até meados de 2026, o que gerou críticas pela falta de concretude.
Pontos fortes do contrato
Estudos revisados por pares sublinham a necessidade de cooperação global em crises de saúde. Uma análise publicada na "The Lancet" (2022) mostrou que a resposta não coordenada à COVID-19 levou a milhões de mortes evitáveis, especialmente em países com sistemas de saúde fracos. O contrato de pandemia aborda essas fraquezas por meio de regulamentações vinculativas para o intercâmbio de dados e o fortalecimento de sistemas de alerta precoce. Um estudo publicado na "Global Health Action" (2023) destacou que a abordagem "One Health" é crucial para minimizar os riscos pandêmicos de doenças zoonóticas, já que cerca de 60% das doenças infecciosas são de origem animal. O contrato pode estabelecer padrões aqui que harmonizem as políticas nacionais.
A ênfase na justiça distributiva também é destacada positivamente. Uma pesquisa no "British Medical Journal" (2024) mostrou que, durante a pandemia de COVID-19, países ricos garantiram mais de 80% das doses de vacina, enquanto países mais pobres muitas vezes ficaram sem nada. O sistema PABS poderia reduzir tais desigualdades, criando incentivos para o compartilhamento de dados e melhorando o acesso a medicamentos. Além disso, a inclusão de atores não estatais é elogiada, pois eles geralmente podem responder mais rapidamente a ameaças à saúde, como demonstrou um estudo em "Health Policy and Planning" (2023) com o exemplo do surto de Ebola.
Pontos de crítica e riscos
Apesar desses pontos fortes, há críticas significativas ao tratado pandêmico, que dizem respeito a aspectos tanto de conteúdo quanto estruturais. Uma preocupação central é a potencial restrição da soberania nacional. Uma análise no "Journal of International Health Law" (2024) argumenta que as obrigações vinculativas do tratado, como a transferência de dados de saúde sensíveis, podem entrar em conflito com as leis nacionais de proteção de dados. Críticos temem que os países sejam pressionados a implementar as recomendações da OMS, mesmo que estas não estejam alinhadas com as prioridades nacionais. Embora o tratado enfatize explicitamente a soberania dos estados e exclua medidas como lockdowns ou vacinações obrigatórias, a questão de quão vinculativas as recomendações serão interpretadas na prática permanece.
Outro ponto de crítica é a falta de poder de execução da OMS. Um estudo em "Global Governance" (2023) apontou que a OMS não tem meios de sanção para punir violações do tratado. Isso pode levar os estados a ignorar suas obrigações, como aconteceu com a iniciativa COVAX durante a pandemia de COVID-19, quando países ricos compraram vacinas diretamente dos fabricantes em vez de agir através da OMS. O tratado permanece vago a esse respeito, o que questiona a eficácia das medidas acordadas.
O financiamento do tratado é outro problema. Uma pesquisa em "Health Economics" (2024) estima que a implementação das medidas previstas requer investimentos anuais de 30 bilhões de dólares americanos, especialmente para o desenvolvimento de sistemas de saúde no Sul Global. No entanto, não está claro quem arcará com esses custos. Críticos alertam para uma dependência de fundações privadas e da indústria farmacêutica, que poderiam minar a neutralidade da OMS, como sugere um estudo em "The Lancet Global Health" (2023).
A questão dos direitos humanos também é discutida de forma controversa. Uma análise no „European Journal of International Law“ (2024) critica que o tratado não aborda suficientemente o equilíbrio entre a proteção da saúde e as liberdades individuais. Durante a pandemia de COVID-19, medidas como lockdowns e restrições de contato levaram a limitações da liberdade de expressão e de movimento em alguns países. Embora o tratado contenha cláusulas para a proteção dos direitos humanos, faltam mecanismos concretos para prevenir abusos.
Reações políticas e sociais
A aprovação do tratado gerou reações mistas. Na Alemanha, o governo federal apoiou o acordo, enquanto o AfD o rejeitou como uma ameaça à soberania. Uma audiência pública no Bundestag em abril de 2024 mostrou a polarização: especialistas como Roland Göhde, da German Health Alliance, elogiaram o tratado como um passo em direção à arquitetura global de saúde, enquanto outros alertaram para uma superpotência da OMS. Nas redes sociais, circularam rumores de que a OMS queria restringir direitos fundamentais, o que foi refutado por checagens de fatos. No entanto, esses debates refletem uma profunda desconfiança em relação a instituições internacionais, que foi intensificada pelas experiências da pandemia de COVID-19.
Conclusão
O tratado pandêmico da OMS é um projeto ambicioso que reage às lições aprendidas com a pandemia de COVID-19. Ele oferece potencial para fortalecer a cooperação global em saúde, especialmente por meio de melhor prevenção, distribuição mais justa de recursos e a abordagem „One Health“. Estudos revisados por pares sustentam a necessidade de tais medidas. No entanto, a crítica à falta de poder de execução, financiamento incerto e potenciais conflitos com a soberania nacional não pode ser ignorada. Sem mecanismos claros de implementação e proteção dos direitos humanos, o tratado permanece um compromisso frágil. Os próximos anos mostrarão se ele realmente preparará o mundo melhor para a próxima pandemia – ou se as altas expectativas serão frustradas.
Fontes:
- The Lancet (2022): „Segurança global de saúde e preparação para pandemias“
- Global Health Action (2023): „One Health e prevenção de doenças zoonóticas“
- British Medical Journal (2024): „Iniquidades na distribuição de vacinas contra a COVID-19“
- Health Policy and Planning (2023): „Papel de atores não estatais em crises de saúde“
- Journal of International Health Law (2024): „Soberania e acordos globais de saúde“
- Global Governance (2023): „Desafios de execução no direito internacional da saúde“
- Health Economics (2024): „Estimativas de custo para preparação global de saúde“
- The Lancet Global Health (2023): „Financiamento e independência da OMS“
- European Journal of International Law (2024): „Direitos humanos em tratados pandêmicos“

