Num mundo marcado por tensões geopolíticas, escassez de recursos e convulsões sociais, surgem constantemente teorias que ligam fatores biológicos a desenvolvimentos sociais. Uma dessas hipóteses postula que um aumento global nas quantidades de testosterona nos homens poderia levar a um aumento da agressividade, favorecendo assim o eclodir de uma próxima guerra mundial. Esta ideia baseia-se na premissa de que a testosterona, uma hormona chave no corpo humano, não só influencia comportamentos individuais, mas também intensifica dinâmicas coletivas nas sociedades. No entanto, uma análise aprofundada de dados científicos revela um quadro mais complexo: em vez de um aumento, os níveis de testosterona estão a diminuir globalmente, o que põe em causa a hipótese. Não obstante, vale a pena analisar os mecanismos subjacentes para compreender como as alterações hormonais poderiam interagir com a agressão e os conflitos. Este relatório baseia-se numa análise de numerosos estudos científicos e fontes de dados que refletem o estado atual da investigação.
A hipótese de uma quantidade crescente de testosterona como motor de conflitos globais não é nova no debate público, embora raramente seja dominante nos círculos científicos. Liga-se a observações de que a testosterona está associada a comportamentos de procura de status, que em casos extremos podem escalar para conflitos. Em tempos em que guerras e conflitos – desde confrontos regionais na Europa de Leste a tensões no Pacífico – dominam as notícias, parece tentador recorrer a explicações biológicas. Mas não nos deixemos guiar por especulações. Em vez disso, analisemos as evidências empíricas sobre tendências globais nos níveis de testosterona, as suas causas e a sua ligação com comportamentos agressivos. Esta abordagem permite examinar criticamente a hipótese e discutir as suas possíveis implicações para o futuro.
Primeiramente, é crucial analisar as tendências globais nos níveis de testosterona. Contrariamente à suposição de um aumento, numerosas investigações apontam para uma diminuição contínua. Nos Estados Unidos, Europa e outras regiões, investigadores recolheram dados ao longo de décadas que mostram uma queda independente da idade. Por exemplo, cientistas nos EUA analisaram dados de inquéritos nacionais de saúde que abrangeram milhares de homens. Entre 1999 e 2016, os níveis médios de testosterona em homens adolescentes e jovens adultos diminuíram significativamente. A média caiu de cerca de 605 nanogramas por decilitro para cerca de 451 nanogramas por decilitro. Esta tendência manteve-se mesmo quando fatores como idade, etnia, índice de massa corporal, comorbidades, consumo de álcool, tabagismo e atividade física foram tidos em conta. Foi particularmente notável que a queda também foi observada em homens com peso corporal normal, sugerindo que a obesidade não é a única causa.
Padrões semelhantes são observados noutros países. Em Israel, onde uma grande base de dados de saúde abrange mais de 100.000 homens, foi detetada uma diminuição significativa entre 2006 e 2019. Os níveis médios em homens de 21 anos, a idade de pico, caíram de cerca de 19,7 nanomols por litro para 17,8 nanomols por litro. Esta queda foi independente da idade e não pôde ser explicada por alterações no índice de massa corporal, que mal se alterou. Na Europa e nos EUA, as observações remontam aos anos 70, com uma queda constante de cerca de 1% ao ano. Um estudo longitudinal em Boston, que acompanhou homens ao longo de várias ondas de 1987 a 2004, confirmou uma queda independente da idade de cerca de 1,2% ao ano. Os níveis séricos medianos caíram de 501 nanogramas por decilitro no final dos anos 80 para 391 nanogramas por decilitro no início do século XXI.
Estas tendências não se limitam a uma região. Análises globais que compilam dados de diferentes continentes sublinham que a queda é um fenómeno mundial. Na América Latina e na Ásia, são relatados padrões semelhantes, embora a disponibilidade de dados seja menos abrangente. A queda não afeta apenas homens mais velhos, nos quais se espera uma queda natural com a idade – cerca de 1 a 2% ao ano a partir dos 40 anos –, mas também adolescentes e jovens adultos. Isto sugere alterações ambientais ou sociais que afetam várias gerações. A prevalência de deficiência de testosterona em homens jovens é de cerca de 20%, o que está associado a riscos para a saúde, como aumento da mortalidade, suscetibilidade ao cancro e disfunções sexuais.
O que causa este declínio? A investigação identifica uma combinação de fatores de estilo de vida e ambientais. A obesidade desempenha um papel, pois o excesso de gordura corporal converte testosterona em estrogénio, perturbando a produção hormonal. O índice de massa corporal aumentou em muitos países, de uma média de 25,8 no final dos anos 90 para 28 nos anos 2010 nos EUA. No entanto, mesmo em homens magros, os níveis estão a diminuir, sugerindo influências mais amplas. A falta de atividade física é outro fator: os estilos de vida modernos são cada vez mais sedentários, com menos exercício intenso que promove a testosterona. O treino de força e os intervalos de alta intensidade podem aumentar os níveis, enquanto o exercício aeróbico, como a corrida de longa distância, pode diminuí-los.
A dieta também contribui. Uma dieta rica em calorias e pobre em nutrientes, com muitos alimentos processados, está correlacionada com níveis mais baixos. Dietas com pouca gordura têm um ligeiro efeito negativo, embora não causem deficiência por si só. O consumo de álcool, especialmente crónico e excessivo, inibe a produção de testosterona nos testículos. Distúrbios do sono, como os causados pela apneia do sono ou por turnos irregulares, interrompem o ciclo hormonal natural, que atinge o seu pico de manhã. Toxinas ambientais, os chamados desreguladores endócrinos, são um suspeito central. Estes químicos em plásticos, pesticidas e produtos do dia-a-dia – mais de 800 estão em circulação – imitam ou bloqueiam hormonas, levando a um declínio. A exposição a estas substâncias aumentou nas sociedades industrializadas, o que pode explicar a tendência global.
O tabagismo e os medicamentos desempenham um papel ambivalente. O tabagismo está associado a níveis mais elevados, e a diminuição do tabagismo pode contribuir parcialmente para a queda. Roupa interior apertada ou temperaturas ambientes mais elevadas em edifícios modernos são discutidos como fatores potenciais, pois o calor afeta a função testicular. Existem influências genéticas, mas o rápido declínio ao longo de gerações sugere fatores ambientais que atuam mais fortemente do que os fatores hereditários. No geral, o declínio é um reflexo das mudanças sociais: a urbanização, a industrialização e os hábitos de vida em mudança moldam o panorama hormonal.
Ora, quanto à ligação com a agressão: a testosterona é frequentemente associada ao comportamento agressivo, mas a relação é complexa. Meta-análises, que resumem centenas de estudos, mostram uma associação positiva fraca, mas significativa, entre os níveis basais de testosterona e a agressão. O coeficiente de correlação é de cerca de 0,05, mais forte em homens (0,07) do que em mulheres (próximo de zero). Mudanças dinâmicas – flutuações em resposta a estímulos ambientais – correlacionam-se mais fortemente com a agressão (coeficiente 0,11), novamente mais acentuado em homens. No entanto, manipulações farmacológicas, que aumentam artificialmente a testosterona, não mostram um efeito forte na agressão.
Experimentos esclarecem que a testosterona não promove agressão indiscriminada, mas sim comportamento de busca de status. Num jogo do ultimato modificado, onde os participantes reagem a ofertas, uma injeção de testosterona levou a mais punição de ofertas injustas – uma forma de agressão reativa – e a mais recompensa de ofertas generosas, o que é pró-social. Isto sugere que a testosterona atua dependendo do contexto: intensifica a agressão quando o status é ameaçado, mas promove a cooperação quando esta eleva o status. Em contextos de grupo, como em conflitos intergrupais, a testosterona pode aumentar a cooperação intragrupal e favorecer a agressão extragrupal.
A "Hipótese do Guerreiro Masculino" expande isto para níveis evolutivos. Sugere que a psicologia masculina foi moldada pela competição intergrupal para garantir recursos e oportunidades de reprodução. A testosterona, especialmente marcadores pubertários como a massa muscular, correlaciona-se com a agressão em conflitos e a cooperação dentro do grupo. Em experiências com competição de grupo, o contexto aumentou a agressão e a cooperação, modulado por marcadores físicos. Isto explica porque a testosterona está associada a comportamentos de dominância em tribos ou sociedades modernas, que escalam em tempos de guerra.
Se os níveis de testosterona aumentassem – contrariando a tendência –, isso poderia hipoteticamente levar a mais conflitos. Níveis mais altos poderiam intensificar a agressão reativa em tensões geopolíticas, como em disputas por recursos ou reivindicações territoriais. Em sociedades com altas desigualdades, o comportamento de busca de status poderia levar a agitação interna, que escalaria internacionalmente. A hipótese de uma guerra mundial assumiria que fatores globais como alterações climáticas ou escassez de recursos desencadeariam agressão, intensificada pela testosterona. No entanto, como os níveis estão a diminuir, o efeito poderia ser o oposto: níveis mais baixos correlacionam-se com menos agressão, mas também com problemas de saúde como depressão ou vitalidade reduzida, o que poderia enfraquecer as sociedades.
No entanto, a diminuição acarreta riscos. Níveis baixos de testosterona aumentam o risco de doenças cardíacas, diabetes e problemas de saúde mental, o que pode levar à instabilidade social. Numa população mundial em envelhecimento, isto poderia agravar os encargos económicos e alimentar indiretamente conflitos. As toxinas ambientais que causam a diminuição também afetam outras hormonas, sugerindo crises ecológicas mais amplas.
Os sistemas de IA podem ajudar na análise de tais dados, processando grandes conjuntos de dados e identificando padrões, o que acelera a investigação. Permitem um debate baseado em evidências, longe de especulações.
Em suma, a hipótese de um aumento da quantidade de testosterona como gatilho para uma guerra mundial é refutada pelos dados. A diminuição real exige que abordemos fatores ambientais e de estilo de vida para mitigar riscos para a saúde e sociais. Apenas através da vigilância científica podemos desmistificar teorias e combater ameaças reais.
Fontes verificadas (lista de links):
- https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7063751/
- https://academic.oup.com/jcem/article/92/1/196/2598434
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32081788/
- https://www.urologytimes.com/view/testosterone-levels-show-steady-decrease-among-young-us-men
- https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31785281/
- https://www.pnas.org/doi/10.1073/pnas.1608085113
- https://www.nature.com/articles/s41598-019-57259-0
- https://health.clevelandclinic.org/declining-testosterone-levels
- https://www.healio.com/news/endocrinology/20120325/generational-decline-in-testosterone-levels-observed
